Flávio Cruz

Esse estranho mundo...

Textos

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                   Imersão profunda

O lugar era um apartamento vazio, sem paredes, aquele esqueleto de concreto no ar. Havia mais pessoas e acho que as conhecia. Conversávamos sem falar. Um diálogo absurdo, uma mistura de esperança e desespero. Precisávamos de abrigo, precisávamos sair dali. Alguém sugeriu, sem usar palavras, que havia uma escada. Alguns foram, eu fiquei. Precisava pensar mais, deveria haver uma resposta. Poderia ser um sonho e, se fosse, era inútil me preocupar. Algo, em minha mente, garantiu que não era. Passei os dedos no chão e olhei para eles. Lá estava o pó. Era ele prova de que aquilo tudo era verdadeiro? Por algum motivo tinha convicção absoluta de que não estava sonhando. Às vezes você simplesmente sabe.
Senti uma vontade enorme de vencer. Olhei para todos e lados e então eu vi. Penduradas em uma das colunas, havia um par de asas. Asas mesmo, como se fossem de pássaro, mas eram de metal. Eram feitas de folhas pintadas de azul, de ouro, mas havia outras tonalidades. Ficou claro o motivo de sua presença. Eu tinha de vesti-las e sair voando pelo espaço. Certamente elas me levariam para um lugar seguro. Não só seguro, um lugar de prazer, de vitória, de paz. Elas se encaixaram perfeitamente em mim.  Bati os braços um pouco, para ver se funcionavam bem. Se houvesse espaço, eu poderia treinar um pouco. Treinar o voo.
Estava claro que aquilo era um desafio. Eu tinha de ousar, de me jogar no espaço.  Precisava de coragem. Precisava voar. Precisava fazer uma imersão profunda no vazio do ar. Foi então que me lembrei: Imersão Profunda!
Era o nome do novo “game” que tinha sido lançado, o maior desafio já criado no gênero. Houve muita controvérsia, quase proibiram sua comercialização. Mas a companhia tinha vencido. Era isso, eu estava em pleno jogo. Havia algo de muito diferente nessa nova diversão. Você precisava voar, sair do esqueleto de concreto. Se não conseguisse, ficaria para sempre preso no prédio não acabado, ou seja, jamais sairia da realidade virtual. Meu Deus, era isso mesmo? Como alguém poderia ter criado uma barbaridade dessas? Como eu tinha sido seduzido por algo tão cruel?

Eu então tive certeza. Eu estava imerso naquela realidade virtual, mais forte que a própria realidade. Eu estava naquela imersão profunda e precisava vencer, precisava mergulhar no ar. E eu não sabia se iria conseguir...

 
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Flávio Cruz
Enviado por Flávio Cruz em 28/06/2019
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