Flávio Cruz

Esse estranho mundo...

Textos

Das cigarras, do Chico Buarque e de outras coisas...




Nessa época de protestos, nada mais justo do que se fazer mais um em nome das pobres cigarras. Talvez  você ache isso desnecessário, mas posso garantir, as coisas aqui consideradas, mudadas as proporções, são muito importantes. Desde que éramos pequenos, pelo menos minha geração, ouvíamos  aquela fábula em que a pobre cigarra era considerada uma irresponsável, preguiçosa, que ficava cantando por aí, sem pensar no seu futuro, sem pensar nos seus descendentes. Não que eu não admire a laboriosa formiga, que não para de trabalhar. La Fontaine, em sua fábula recontada a partir de Esopo, não teve a menor consideração pela coitadinha da cigarra. Eu poderia simplesmente dizer “Não é o que parece”, mas seria simplificar muito. Prefiro explicar os fatos.


Pois bem, agora sabemos que, pelo menos uma espécie de cigarras, vive nada mais, nada menos, do que 17 anos debaixo da terra, antes de sair. Isso por si só, já merece um prêmio Nobel de paciência. Quantos de nós ficamos aflitos depois de apenas alguns minutos no elevador? E tem mais, depois que ela sai, fica pouco tempo por aqui, só o suficiente para procriar, depois acaba morrendo. Sabe aquele cantar insano que elas têm, que não para? Aquilo é para afastar os predadores, ensurdecê-los, proteger suas crias. Cantar é uma forma de luta, sabia? Olha só, num passado não muito distante, o Vandré, o Chico, e tantos outros como eles, cantaram muitas verdades que alguns não queriam ouvir.


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Poderia parar por aqui, e já seria o suficiente para justificar a cantoria das nossas amiguinhas. Quisera eu ser comparado ao Chico! Nossa, não dá nem para imaginar. Mas tem mais. O número 17 não é por acaso. Não sei como as danadinhas descobriram que dezessete é um número primo e por isso é mais difícil coincidir sua saída dos subterrâneos com a de uns indesejados predadores. Não me obriguem a explicar os detalhes, pois, nem de longe, vou ter a mesma capacidade que elas têm de entender essas coisas. Fala a verdade, não é demais? Esperar 17 anos debaixo da terra, porque é o tempo certo para melhor proteger os filhotes, depois sair e cantar alto para espantar os inimigos, isso não é tremendo? E esse pessoal falando que elas são preguiçosas. La Fontaine, me desculpe, mas dessa vez você deu um tremendo de um fora! O Esopo, até que eu perdoo, afinal faz tanto tempo...






17 anos esperando (UOL)



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Flávio Cruz
Enviado por Flávio Cruz em 21/06/2013


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