Flávio Cruz

Esse estranho mundo...

Textos

O Voo PA 202
 
“Colhe o dia presente e sê o menos confiante possível no futuro”
(“Carpe diem quam minimum credula postero.)
Horácio: Odes
 

 
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Fonte: www. desastresaereos.net
 
Montego Bay, 1952. No dia 29 de março, num pequeno escritório de uma casa, alguém datilografa uma carta usando uma daquelas antigas máquinas que existiam antes dos computadores, do “word”, etc...A  missiva – para ficar mais coerente com a época – contém informações detalhadas para uma outra pessoa – uma mulher – em Buenos Aires, Argentina. Há uma longa explicação e  enumeração de razões pelas quais um garoto não poderia viajar para a Argentina. Um telegrama já havia sido enviado antes, agora, pela carta, só iam as justificativas. O garoto tinha tido apendicite, poderia haver inflamação, além disso a viagem era muito longa, dois pernoites, três dias, uma longa escala em San Juan...Sem falar nos custos, é claro. Dá para e deduzir que o menino é “levado da breca”,  também para se usar uma expressão da época.  Não é possível deduzirmos se a moça ( ou senhora ) de Buenos Aires é a mãe, se o remetente é o pai,  ou se não é nada disso. A assinatura de quem escreveu o texto é ilegível, mas os nomes do garoto e da moça ( ou senhora?) de Buenos Aires estão bem claros. Claro está também o nome de outro garoto que aparentemente vive em Buenos Aires. Irmão talvez daquele que vive em Montego Bay? Claríssimo também é o endereço escrito no envelope. Chequei na internet e o endereço ainda existe, dá até para ver o prédio no Google. No entanto, não posso revelar nomes, pois essas pessoas podem estar vivas – pelo menos os meninos , talvez com cerca de 70 anos. Por um acaso do destino eu tenho uma cópia da carta. Certamente eles não sabem o que aconteceu com a mesma, que, como veremos a seguir, tem sua própria história.
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Agora vamos um pouquinho mais para frente, dia 28 de abril de 1952. Conforme descreve muito bem  Jorge Tadeu em seu website, naquela tarde,  o Boeing 377 Stratocruiser 10-26 – Prefixo N1039V da Pan American World Airways, estava para partir do aeroporto do Rio de Janeiro. O Comandante Albert Grossarth e mais oito tripulantes faziam os preparativos para o vôo PA 202 com destino a Nova Iorque. Quarenta e um passageiros também se preparavam para a viagem. Todos tinham seus planos, seus sonhos, sua agenda. Como conjetura o jornalista Jorge Tadeu em seu relato, a Madre Superiora Marie Louise Pardieu deve ter feito suas preces e todos os outros certamente tinham inúmeras coisas passando por suas cabeças.O avião partiu. Algumas horas depois deveria fazer uma checagem em Carolina, no Maranhão, antes da escala em Port of Spain. Isto nunca aconteceu, pois pouco tempo antes, o aparelho sumiu misteriosamente dos céus.
Talvez esse tenha sido um dos resgates mais tumultuados e complicados da história da aviação. Houve de tudo, confusão e briga entre diferentes equipes, enormes dificuldades técnicas e política: o então candidato a presidência da república, Adhemar de Barros , se meteu na confusão. Finalmente os corpos foram resgatados. Junto com eles alguns pertences pessoais que, apesar de tudo, ficaram intactos. Aí é que entra a carta dos nossos personagens ali acima. As duas folhas de papel estão guardadas em uma caixa com outros documentos e objetos num depósito da Pan Am em Miami. O voo, que tragicamente selou seu destino em Carolina, estava vindo de Buenos Aires antes de passar pelo Rio. Ao que tudo indica, a missiva não encontrou seu destinatário e estava voltando para o remetente. A verdade é que o fado traiu a todos em diversos graus e medidas. Nossos personagens estavam a salvo mas nunca souberam que a carta não foi entregue e que estava sendo devolvida. Foram enganados, sem gravidade, devo confessar, duas vezes pelo desencadeamento de eventos. Por outro lado, o acidente interferiu fatalmente com o futuro e ambições de outras cinquenta pessoas. Pequenos e grandes sonhos, projetos importantes e outros nem tanto, promessas, missões, tudo foi cancelado, anulado e erradicado sem nenhuma explicação, pelas mãos cruéis do destino.
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Fonte: www. desastresaereos.net
Não havia nada que se pudesse fazer, nem há agora. É o que é, foi o que foi. Por isso, não consigo resistir e preciso dar um conselho. Eu sei que é daqueles piegas, fora de moda, repetitivos e chatos. Ainda assim, é verdadeiro. Se você tem algo importante, bom ou gostoso para fazer, não espere, não deixe para amanhã ou depois.Faça já, nunca se sabe...


Veja o site: 
Desastres Aéreos by Jorge Tadeu da Silva

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Flávio Cruz
Enviado por Flávio Cruz em 07/07/2012


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