Flávio Cruz

Esse estranho mundo...

Textos

A viagem


Atrás da escola, havia um bosque com árvores não muito altas e que depois se estendia até o pé da montanha.  A parte da frente do estabelecimento dava para o bairro de classe média onde morava  a grande maioria dos alunos. A maior parte era transportada pelos próprios pais. Alguns moravam tão perto que andavam até suas casas. Era o caso de Joseph e das gêmeas Ana e Érica, todos com 9 anos de idade. Esses três andavam sempre juntos. A família do Joseph tinha vindo da Alemanha há um ano, quando pai fora transferido pela firma em que trabalhava para sua filial no Brasil. As gêmeas também chegaram na mesma época, quando seus pais americanos se mudaram para cá por causa de negócios. Romero, outro garoto de nove anos, ou porque tinha uma certa inveja deles ou porque gostasse de Érica, estava sempre de olho nos três. Foi por isso que notou que, às vezes, os mesmos, ao invés de irem para casa após as aulas, entravam no bosque.
Naquele dia ele resolveu segui-los. Depois de andarem por cerca de um quilômetro, pararam em uma clareira. Romero ficou à espreita e percebeu, depois de alguns minutos, que, apesar de ser pleno dia, uma luz muito forte vinha do chão, bem no meio dos três. Alguns segundos depois, as coisas voltaram ao normal e, esticando o pescoço, ele percebeu que havia um objeto, aparentemente feito de inox, semelhante a um grande ovo, equivalente a três ou quatro bolas de futebol. Assim que os três se afastaram, Romero tentou se aproximar do “ovo”.  Ele não estava mais lá, porém. Entre ele se certificar de que os três haviam se afastado o suficiente e ele voltar o olhar para a cena, tudo havia desaparecido.
Não era todo dia que os garotos iam até o local secreto. Era uma vez por semana, mas nem sempre no mesmo dia. Assim que  Romero teve uma chance de segui-los outra vez, sua mãe apareceu na última hora para pegá-lo e ele teve de esperar mais uns dias para uma nova oportunidade.


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Era uma quarta-feira e ele percebeu que naquele dia iria acontecer algo, pois os três conversaram muito durante o intervalo. E assim foi. Depois das aulas, os três sumiram no meio das árvores. A mesma cena se repetiu. Desta vez Romero percebeu que, enquanto estavam em volta do objeto, eles pareciam estar muito concentrados, os semblantes fechados. Depois não viu mais nada. A luz era tão forte, muito mais forte do que a primeira vez, que praticamente o cegou por uns minutos. Quando conseguiu novamente fixar a vista, ninguém mais estava lá. Nem os garotos, nem o objeto.
Na semana seguinte, o pequeno Romero ficou com medo e não foi. Ficou ao lado do prédio escolar, esperando que eles voltassem. Foi nesse dia que notou algo estranho. Logo após os três emergirem de dentro das árvores, o carro do pai de Joseph estacionou junto à calçada da escola e esperou pelos três. Quando estavam bem perto, saiu e deu um casaco para cada um deles que, aparentemente, morriam de frio. Isto significava que os pais sabiam onde eles estavam.
No dia seguinte, vários boatos estavam correndo pela escola. O primeiro deles dava conta do desaparecimento dos três. Segundo as notícias, não havia sinal de violência, aparentemente eles haviam saído da casa por vontade própria, à noite. Outra coisa estranha foi a entrevista dada pelos pais para a Rádio local. Todos estavam comentando sobre o comportamento deles diante dos fatos. Falavam da frieza com que narravam o ocorrido. Muitos atribuíam isso ao fato de eles serem estrangeiros. O segundo boato foi uma luz vista por pessoas que estavam acordadas, por volta das duas horas da madrugada. Deixou um fino rastro no céu, de baixo para cima. Os mais “entendidos”  tentavam relacionar os dois fatos. Tanto a polícia quanto a direção da escola minimizaram as coincidências, explicando que tudo era imaginação e que as pessoas, com razão, estavam assustadas e começavam a “pensar” coisas.
Depois de uma semana, o pequeno Romero resolveu ir até a Diretoria da escola e relatar o que sabia. Descreveu com todos os detalhes o ocorrido. A diretora chamou seus pais e explicou que o garoto estava assustado e estava imaginando coisas. Talvez precisasse de um psicólogo.

O fato é que os três nunca mais voltaram. Os pais se mudaram dali. Segundo os comentários, tinham voltado para seus países de origem. Quanto ao Romero, nunca alguém deu a mínima para sua história. Afinal, ele era apenas um garoto.
Flávio Cruz
Enviado por Flávio Cruz em 02/06/2013


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