Flávio Cruz

Esse estranho mundo...

Textos


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Irmãos, irmãos, negócios à parte

-Sr. Leo, está reconhecendo esta voz? Obviamente é sua...
-Não consigo entender, é minha voz, mas eu nunca falei isso...
-Explique melhor, Sr. Leo. Não estamos entendendo...
Leo não respondeu e um dos dois investigadores rodou novamente a gravação. Era impressionante. Ao mesmo tepo que Leo tinha certeza de que não falara aquilo, tinha também certeza de que aquela era sua voz. Estava zonzo, não entendia nada. A conversa era entre uma pessoa que para os investigadores era ele e mais dois homens. Estavam planejando um assalto a banco. Havia muito detalhes e os bandidos resolveram gravar para se lembrar depois. Dois deles foram presos logo após a bem sucedida empreitada e na casa de um deles apreenderam todos os tipos de aparelhos e depois de inspecioná-los, acharam a conversa incriminadora. O terceiro homem que os investigadores haviam prendido seria Leo, o chefe do bando.
Era certamente um pesadelo. Leo era daquelas pessoas que você pode considerar quase perfeitas. Daquelas que nos filmes policiais se fala que “não tem nem multa de trânsito”. Prenderam-no de manhã em seu trabalho. Estava assustado e tentando entender o que estava acontecendo. Era uma pessoa normal, jamais tivera qualquer problema com a polícia. Morava sozinho, tinha uma noiva, pretendia casar-se em um ano. Estava arrasado. Não sabia o que o atormentava mais: a vergonha de estar preso ou o medo de ser condenado por algo que não tinha feito.
Na parte da tarde as coisas pioraram. Os outros dois comparsas – comparsas segundo a polícia – cada um em separado, confirmaram que aquele era, sim, o seu chefe Marvin. Claro, os investigadores imediatamente deduziram que Marvin era seu nome de guerra e Leo era seu verdadeiro nome. Leo viu as coisas se complicando, pensou em sua noiva Nora. O que ela iria pensar? E o emprego? Mesmo que tudo aquilo fosse um engano, não iam querer que ele voltasse. O emprego...bem ele podia dizer adeus.
Foi tudo muito rápido. A polícia, os investigadores, o promotor e o juiz agiram com uma eficiência nunca antes vista. No julgamento ele ouviu várias vezes que as provas eram “conclusivas”, “gritantes”. Por falar em gritar, era tudo que ele queria. Gritar contra a injustiça, gritar contra a incompetência, gritar contra o sistema. Mas não podia, não dava. O seu advogado, apontado pelo governo, além de ser extremamente inepto, acreditava mesmo que ele fosse culpado.
E lá estava Leo na prisão, sua vida destruída. Praticamente não tinha amigos e a noiva, por vergonha ou por decepção, não vinha visitá-lo. Ficava ressentido pois mesmo os piores criminosos a sua volta tinham visitas. Foi por isso que ficou admirado quando, depois de algumas semanas, anunciaram que alguém queria vê-lo.
Leo estava esperando na sala própria para isso, quando Marvin entrou. Quase caiu de costas. Parecia que era seu outro “eu” entrando. No entanto, era loiro, certamente tingira o cabelo. Fora isso, ele era exatamente igual. Quando falou, então, a mágica se completou. Era sua própria voz.
-Sou seu irmão gêmeo...
-O quê?
-Sim, seu irmão. Você não sabia de mim mas eu sabia de você. Você foi adotado por uma família de bem, e eu não queria envergonhá-lo ou perturbá-lo com minha presença. Você sabe, minha profissão...Mas eu sempre estive de olho em você...
-Você que assaltou aquele banco?
-Sim, infelizmente fui eu.
-Como você teve coragem de deixar que eu fosse parar na prisão?
- Você vai entender. Primeiro queria terminar de explicar...
Leo ouviu contrariado a história de Marvin. Não  tivera tanta sorte como ele. O primeiro casal que o adotou, divorciou logo em seguida e ele foi parar num orfanato. Daí para frente só desgraça. Fuga, prisão para menores, violência, etc...Acabou virando bandido. Mas ele era dos bons. Apontou o indicador para a testa e falava:
-Não sou como os outros, eu sei usar isso aqui...
-Estou vendo...Você também usou seu irmão para pagar por seu crime!
Leo, na verdade, estava dividido. Seu coração pulsava com a novidade de ter um irmão, alguém da família, finalmente. Por outro lado, ele ali na prisão olhando para seu gêmeo, criminoso...Que sina.
- Vou tirar você daqui...
-Como?
-Deixa comigo, é melhor você nem saber. Mas como eu estava falando lá atrás, você não sabia de mim, mas eu sabia de você. Sempre acompanhei a sua sombra...Você se lembra de quando você ia perder seu carro porque botou seu dinheiro em um investimento fajuto e ficou completamente quebrado? Lembra-se do dinheiro que apareceu na sua conta? E aquela vez que aquele vizinho doido estava  deixando você louco? Você estava morrendo de medo que ele se tornasse violento? Ele mudou, não  mudou? E foi por aí afora...
Leo  lembrou-se de quantas vezes fora salvo – na verdade, sempre – pelo destino. Pois bem , o destino era seu irmão gêmeo, Marvin.
-Tenho de ir agora. Preciso “trabalhar”...Um advogado vai visitar você e tudo vai ser esclarecido.
No dia seguinte, o Dr. Hernandez visitou-o na prisão. O seu irmão havia se apresentado para a polícia, mostrado evidências incontestáveis de que ele era o autor do crime. Ficou preso. Em questão de dias Leo iria ser solto. O promotor já sabia, já concordara, era uma questão de papelada, burocracia.
Demorou um pouco mais do que o esperado. Um dia após ter chegado em casa, estava arrumando a bagunça, quando tocaram a campainha. Uma carta com entrega especial. Dentro, um cheque administrativo. Um valor significativo, praticamente o salário de um ano. Como Marvin  tinha feito isto de dentro da prisão? Resolveu que no dia seguinte iria visitá-lo na cadeia.
Os funcionários não diziam o que tinha acontecido. Mas ele sabia que algo diferente havia ocorrido. Conversas sutis, movimentos estranhos. Finalmente vieram até ele.
-Seu irmão não se encontra mais aqui.
-O que aconteceu? Foi transferido?
Deram um número para ele ligar. Ficou pensando que talvez ele fosse algum bandido muito procurado – crimes graves – e quem sabe tivesse sido transferido para uma prisão de segurança. Com isso em mente dirigiu-se para casa. Para dizer a verdade, ele estava sentindo um orgulho estranho. Seu irmão, um bandido famoso, inteligente. Talvez até fizessem um especial na TV sobre ele...
Abriu a porta e ligou a televisão no noticiário. Imediatamente percebeu que era uma edição especial de notícias. Leu o título da manchete no rodapé da tela: “Fuga inédita deixa a polícia perplexa”. 
Nunca pegaram o Marvin de volta. No entanto, de vez em quando ele aparecia na vida de Leo, geralmente em forma de presentes ou ajuda.  Leo tinha orgulho dele mesmo assim, seu irmão, um cara diferente...Ele pesquisou depois e decobriu que ele nunca fora violento, só usava a inteligência e artimanhas para cometer seus crimes. Realmente tinha mais orgulho do que vergonha. Mas isso ele guardava para si mesmo, não falava para ninguém.
Agora sabemos como Leo ficou conhecendo seu irmão gêmeo Marvin.

Flávio Cruz
Enviado por Flávio Cruz em 08/09/2012


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